Entrevistas

01/08/2006

Aposta na pecuária

Fazenda ocupa 1.600 ha de soja e milho com recria e engorda de 4.000 cabeças

 

No queoderia dar uma propriedade comprada por um advogado de São Paulo e gerenciada por um caminhoneiro? A reposta à pergunta, feita 24 anos atrás, era de que quebraria em pouco tempo. Mas não foi o que aconteceu com a Fazenda Água Limpa, à época com apenas 350 hectares de área no município mineiro de Uberlândia, a 50 km do centro e quase na divisa com a vizinha Campo Florido. Além de ter sobrevivido, hoje a propriedade tem área sete vezes maior e abriga diversas atividades agropecuárias.

 

Adquirida por José Eduardo Ferreira Neto em 1982 para o plantio pioneiro de soja na região, a propriedade tem agricultura (soja, milho, café e cana-de-açúcar), pecuária (bovinos de corte, eqüinos de corrida, avicultura, suinocultura e piscicultura) e toda uma estrutura para tocar essas atividades, como fábrica de ração e silos graneleiros.

 

Tendo como princípio não colocar todos os ovos na mesma cesta, José Eduardo ampliou o leque de atividades a partir de 1992. Mas só em 2000 é que ele agregou a pecuária de corte, praticamente como atividade maginal, já que as 1.000 cabeças que comprou tiveram como objetivo aproveitar a palhada das plantações de soja e milho da propriedade.

 

De um ano para cá, o jogo virou de vez com os preços dos dois grãos na lona, o empresário está simplesmente transferindo a área de 1.600 ha que as duas culturas ocupavam para a recria e engorda de bois. Enquanto em 2004 ele abateu 1.000 cabeças, no ano passado foram 3.000 e a previsão deste ano é de 4.500 cabeças, todas terminadas em confinamento.

 

Outra vez, surge uma pergunta; por quê a pecuária, que também vem amargando preços contidos nos últimos meses? "Com gado se ganha pouco mas não se perde. Se eu comprar bem o garrote e mantiver bons pastos, boa alimentação, não tem como perder dinheiro", responde José Eduardo, acrescentando que, no médio prazo, o Brasil continuará sendo o "celeiro do mundo" da carne bovina.

 

Ele descarta a ampliação de outras atividades, como o café - que tem bom preço hoje mas que exigiria investimento pesado, pois é todo irrigado -, a avicultura e a .suinocultura onde ele é integrado com indústrias, que não têm interesse em ampliar a demanda - e também a piscicultura, um segmento "complicado, com pouca tradição de consumo e margem de lucro muito pequena".

 

Além do mais, José Eduardo Ferreira Neto considera a pecuária uma atividade prazerosa, mesma opinião compartilhada pelo fiho Maurício Marrey Moacir José Ferreira, que tem participado da condução do negócio. Para ter apoio técnico que lhe permita usufruir o máximo da atividade é que o empresário contratou, há pouco mais de seis meses, a consultoria agropecuária Marco Rural , também de Uberlândia.

A assistência é dada diretamente por um dos sócios da empresa, o veterinário Marco Aurélio Nunes, especialista em produção de ruminantes e em planejamento e gestão. O técnico tem pela frente um amplo campo de trabalho na Água Limpa, que ainda "engatinha" na estruturação de pastos nas áreas herdadas da agricultura.

 

Os 1.000 ha plantados com braquiarão dentro do Sistema Santa Fé (plantio consorciado com milho) ainda carecem de subdivisão. Em 2005 foram montados 10 módulos de pastejo, que variam de tamanho, mas muito grandes para as necessidades que agora se apresentam, A providência tomada provisoriamente foi separar categorias e abrigar um máximo de 500 animais em cada módulo. Por aí já se vê a pretensão da fazenda; para bois em terminação a lotação bate em 5 UA/ha.

 

RETORNO ALTO - Entusiasta da pecuária, atividade que assegura ser uma das mais rentáveis do setor rural, Marco Aurélio Nunes defende que a Água Limpa amplie a terminação para 10.000 cabeças nos próximos dois anos, sendo 7.000 em confinamento e 3-000 a pasto. O assunto ainda está sendo estudado pela propriedade, mas o técnico garante que o retomo será alto.

 

Para tanto, serão tomadas medidas como replantio de braquiária para corrigir falhas em pastos - o que demandará gradagem de 100% de algumas áreas -, subdivisão de pastos em piquetes e adubação. "Vamos copiar na pecuária o que se pratica na agricultura: aplicação de tecnologia", diz Nunes

 

A adubação dos 1.000 ha de pasto deve começar em outubro e tem todo o apoio do gerente da Água Limpa, Fernando Fernandes Souza Silva, que complementa: "O critério será repor o nível de nutrientes que a planta extraiu do solo." Ele cita o exemplo das áreas de milho que foram plantadas com braquiária brizanta: a adubação residual que o milho deixou vai desaparecendo ano após ano. "Por isso que tem gente que vê o pasto começar a degrader com cinco anos de uso: não repõem os nutrientes e querem que a pastagem resista!", diz Silva

 

Mas gastar com adubo num momento de crise não é loucura? O consultor da Marco Rural faz as contas para comprovar que não: ele toma como exemplo um pasto de 120 ha que será subdividido em 10 piquetes de 12 ha e que hoje abriga 150 bois de 12@, o que equivale a 1 UA/ha. Cada boi será terminado com peso de 17,5@, o que resulta em 2.625@; considerando um modesto preço de venda de R$ 51/@ (à época da reportagem, no final de julho, o preço da arroba já tinha subido R$ 1), a receita vai a RS 133,875.

 

Aplicando 400 kg de adubo por hectare, com o adubo a RS 0,80/kg, serão gastos R$ 320/ha. Em 120 ha o gasto vai a R$ 38.400, Em contrapartida, é possível colocar três vezes mais bois nessa área. Assim, 450 bois renderiam 7.875@ ou R$ 401.625. Descontando os R$ 38.400 gastos sobram líquidos R$ 363.225, R$ 229.350 a mais do que no sistema anterior, Fernando Fernandes lembra que ao custo também deve se agregar o gasto com vacina, vermífugo. Mesmo assim, o ganho seria expressivo,

 

"A pecuária rende mais que o milho e a soja", afirma Marco Aurélio, A comprovação vem da mesma conta. Adubando um hectare com 700 kg (400 no plantio e 300 na cobertura) tem-se um gasto de R$ 560/ha. Soma-se a isso gasto com semente, defensivos e colheita, de R$ 1.090. O total será de R$ 1.650/ha X 120 ha = R$ 198.000, Nesse nível de adubação se consegue uma produtividade de 120 sacas/ha (7.200 kg), o que representa um custo de produção de R$ 13,75/saca, Hoje o preço está abaixo disso, mas se estivesse a R$ 18, mesmo assim, não ganharia da pecuária: RS 18 x 120 sc/ha = RS 2.160/ha X 120 ha = R$ 259.200. Tirando o custo de R$ 198.000 sobram R$ 61.200, três vezes menos do que o lucro da pecuária.

 

GANHO NA SECA - Neste ano, a Água Limpa dividiu o abate em confinamento em duas etapas: a primeira começou em junho e terminou em agosto, com 1.500 cabeças; a segunda, se estenderá deste mês até outubro e terminará mais 3.000 animais. Aproveitando ainda a restava dos 600 ha de agricultura que foram colhidos este ano, a propriedade tem conseguido proporcionar ótimo ganho de peso aos animais que ainda estão no pasto. Num lote de 540 bois de 12@ que ficou sobre palhada de soja, um reforço no cocho de uma silagem de milho que sobrou do ano passado, mais sal proteinado, permitiu ganho de 900 gramas/dia, no cálculo do consultor da Marco Rural.

 

Esse lote chegou no confinamento, em meados de agosto, pesando 400 kg e precisará de apenas 50 dias para alcançar 500 kg (17,5®, considerando um rendimento de carcaça de 53%), já que a previsão de ganho no cocho fechado é de 1,850 kg/dia. Para tanto, a ração é balanceada na proporção de 35% de volumoso e 65% de concentrado, em teores de matéria seca. Nesta segunda etapa os bois receberão 9 kg/dia de concentrado (à base de farelo de soja, farelo de milho e núcleo mineral), mais 17 kg de volumoso (metade de cana picada, metade de silagem de milho).

 

Num outro pasto, de braquiarão plantado em área onde foi colhido milho, animais de 13@ estavam recebendo só sal proteinado, com ganho de peso estimado de 550 gramas/dia. A previsão para esse lote é que chegasse à segunda etapa do confinamento pesando 412 kg, precisando de mais 47 dias para alcançar peso de abate.  E justamente por ser área que recebeu adubação residual da agricultura que os pastos da Água Limpa estão com capacidade elevada de suporte. Marco Aurélio Nunes calcula que agora no inverno ela seja de 1.400 cabeças, o que equivale a 1,2 UA/ha , considerando a média de peso dos animiais em 390 kg (0,86 UA) em 1.000 ha. Já para o verão, a expectativa é de suporte de 2.500 cabeças, equivalente a 2,1 UA/ha.

 

APROVEITANDO CERCAS - Mais investimentos serão necessários para incrementar a pecuária de corte da Fazenda Agua Limpa. A subdivisão dos pastos em piquetes, por exemplo, demandará a instalação de cercas elétricas. Mas dá para economizar. Como em alguns pastos haviam sido instaladas cercas paraguaias, Marco Aurélio Nunes pretende desmanchá-las e aproveitar o material. "Para cada quilômetro de cerca paraguaia consigo 2,5 km de cerca elétrica", calcula ele.

 

Outra providência que está nos planos do consultor é instalar áreas de lazer quando forem feitas as subdivisões dos pastos atuais. A idéia é transferir bebedouros que hoje existem em todos os pastos para essas áreas, que também receberiam cochos de sal e de suplementos protéicos.

 

Em termos de área plantada, a cultura que vai avançar também é a cana-de-açúcar. Hoje ela ocupa apenas 60 ha mas deve dobrar de área no ano que vem, já que ela é o volumoso escolhido para o confinamento. Neste ano o corte do canavial ainda foi feito manualmente, com produtividade de 100 toneladas/ha, mas em 2007 será mecanizado.

 

A exemplo do milho, a cana-de-açúcar vem sendo ensilada (com aditivo), a um custo de R$ 43 a tonelada; in natura, seu custo baixa para RS 36/t. Somado o custo do concentrado, Nunes calcula em R$ 46 o custo da arroba no confinamento, por boi. Como são ganhas 3,5@ nesse período, o custo fica em R$ 161,00. Considerando mais R$ 228,00 pelas seis arrobas ganhas na recria a pasto (R$ 38/@) e R$ 344,00 na compra do garrote de oito arrobas (R$ 43/@) tem-se um custo total de R$ 733,00 ou R$ 41,88 por arroba produzida. Se o valor de venda for R$ 51/@, o lucro da Água Limpa será de R$ 9,12/@ ou R$ 159,60 por boi de 17,5@ vendido.

 

Fonte: Revista DBO, agosto de 2006

Por Moacir José

 

Marco Aurélio Nunes 

Diretor Executivo da Marco Rural Consultoria em Agronegócios 

Especialista em Gerenciamento de Projetos pela FGV 

Especialista em Produção de Ruminantes pela Esalq/USP 

Veterinário pela UFU 

marcoaurelio@marcorural.com.br 

(34) 3210-7646








 

 

 

 

 

 







Assine nosso informativo e receba novidades da Marco Rural diretamente em seu e-mail. Basta preencher os campos abaixo e clicar em assinar.


*  Seu endereço de email:

E-Marketer

Últimos Tweets

Marco Rural

Av: Dr. Jaime Ribeiro da Luz, 971, sala 48 - Santa Mônica CEP: 38408-188
FONE: (34) 3210-7646 | 9 9162-0542  Uberlândia/MG -  marcorural@marcorural.com.br